A História da Amamentação da Cláudia Rodrigues

Se és uma Mãe que, por qualquer motivo, está a SUPLEMENTAR com o teu leite ou com leite artificial, a minha história pode inspirar-te.

O meu bebé nasceu a 27/10/2015, em Bienne, na Suíça.

Depois de 14 horas de trabalho de parto com contrações a cada 2 minutos e sem qualquer intervenção, o parto não evoluía. Aceitei então 2 horas de oxitocina e epidural para descansar um pouco e tentar que a dilatação evoluísse. Apesar disso, acabámos por ir para cesariana – uma cesariana com o marido presente, muito humanizada. Enquanto os médicos faziam o que tinham que fazer, eu respirava e conversava com o meu bebé, dizendo-lhe que era seguro nascer assim, que em breve estaríamos juntinhos. Senti-o a sair de dentro de mim e só semanas mais tarde me lembrei disso. Para mim, não estar totalmente anestesiada e ter sentido o meu bebé a sair foi muito importante.

Ele começou logo a chorar (ele, a Mãe, o Pai…) e, quando o encostaram junto ao meu rosto, no meio das lágrimas disse-lhe “É a Mãe. Está tudo bem. Já estamos juntos.“, ele calou-se e não voltou a chorar. Foi levado para ser medido e pesado, sempre com o Pai. Ainda voltou mais uma vez perto de mim e enquanto acabavam a cirurgia fez pele a pele com o Pai até eu estar pronta para o receber nos meus braços, o que terá acontecido após uns 20 ou 30 minutos.

A parteira disse que ele estava já à procura da mama.

Aquele primeiro contacto com a mama foi estranho.

Eu não estava totalmente à vontade por causa da costura (e na verdade estava exausta, cheia de fome e só queria dormir). A parteira levou-o à mama, não o deixando procurar a mama e encontrar o seu caminho (ai, se eu soubesse o que sei hoje).

Nessa noite eu senti que algo não estava bem, ou pelo menos eu sentia-me muito insegura se estava tudo bem ou não. Perguntei imensas vezes às parteiras se estava a fazer bem. Dormi 3 horas nessa noite com ele ao colo, sentada na cama, de forma segura para ele não cair. O meu marido dormia na cama ao lado (os 300 CHF mais bem gastos da minha vida para que ele lá pudesse passar aqueles 2 dias comigo). Estava exausto pela experiência que tínhamos tido, mas estou em crer que foi mais o desgaste emocional do que o físico. É a minha âncora e foi extraordinário na sua serenidade de cuidador durante o parto (no próximo vou ter uma doula por mim, por ele e pelo meu filho).

Estávamos exaustos, mas felizes.

Lembro-me de olhar nos olhos do meu filho e ver um brilho e uma expressão como se me dissesse “Voltei a Casa”.

No dia a seguir foi quando comecei a sentir dores nas mamas. Perguntei imensas vezes se estava a fazer tudo bem, pedi ao pediatra para ver o freio sublingual (hoje, só pela forma como ele observou, sei que ele percebe tanto de verificar freios como eu de fazer sapatos) e todos diziam que estava tudo bem.

Então, porque me doía?!

Ao 2º dia já tinha os mamilos gretados e estava cheia de dores, tanto que saí do hospital direta à farmácia para comprar cremes e “poções mágicas” que a parteira que me tinha acompanhado no parto me indicou… comigo simplesmente não funcionaram.

Nesse dia chegou o “baby blues” e durante a noite o meu mundo ruiu. Dores, desespero, culpa. Umas semanas antes do parto, eu senti que estava muito bem preparada para o parto, mas não para a amamentação. Foi difícil digerir que eu sabia isso e não fiz nada. Eu pensava que era um processo natural e que não devia ser preciso fazer nada de mais. E se tivesse problemas a parteira era especialista em amamentação. Hoje sei que a preparação para a amamentação começa na gravidez.

Ao 3º dia a parteira foi lá à casa e não corrigiu a pega. Pelas fotos e com o conhecimento que tenho agora, percebo que aquela pega era péssima (ele pegava apenas no mamilo). Ninguém foi capaz de corrigir a pega – duas parteiras e nenhuma o fez.

As minhas dores e gretas e a perda dele de quase 10% do peso levaram à introdução de leite artificial ao 3º dia.

Foi precipitada essa avaliação porque era um bebé de cesariana com mais retenção de líquidos (ainda por cima um bebé de 4430g), pesado em balanças diferentes. Uma parte de mim sabia que aquilo estava errado, a outra entregou-se. Lembro-me de uma Conselheira em Aleitamento Materno, a Luísa, comentar num grupo de Facebook “O leite artificial parede um oásis, mas não é”. E não é mesmo! Passou de oásis a uma longa caminhada por um deserto infernal.

Nesse dia o leite começou a subir, mas nada de exuberante. A parteira perguntava-me sempre se tinha as mamas duras e eu não tinha. E a minha confiança a resvalar montanha abaixo de cada vez que ela me perguntava isso. Hoje sei que nem todas as mulheres ficam com as mamas em pedra e cheias de leite.

Dávamos o leite artificial com uma seringa porque sempre recusei o biberão por saber a implicação que pode ter na amamentação. Mas as dores e as gretas eram tão grandes que eu evitava colocar o bebé na mama o mais possível. Nunca me esquecerei dele a procurar a mama e eu a evitar.

Cada gota que ele bebia de leite artificial era uma lágrima que me caía.

Eu sabia que não era o melhor para o meu bebé. Eu queria dar-lhe o melhor, mas não conseguia.

Pelo 7º dia, o meu bebé amado rejeitou a mama. Como é que era possível?! Sentia-me levada por um furacão para bem longe do local onde estava. Como é que em tão pouco tempo a minha história de amamentação tinha descambado assim? Entrei em pânico.

A parteira sugeriu então o sistema de nutrição suplementar para evitar o biberão. Foi o que nos salvou de um desastre maior.

A pega foi vista por outra parteira e especialista em amamentação. Parecia tudo bem, diziam elas.

Então porque me doía tanto?!!!

Eu tinha dores, muitas dores. A produção de leite não parecia ser suficiente e ele não aumentava de peso como o esperado.

Sinto que naquele processo me desliguei emocionalmente do meu filho. O brilho que lhe vi nos olhos na maternidade desapareceu.

Eu desliguei-me emocionalmente do meu filho e ele já não estava em Casa.

Sentia-me a pior mãe do mundo. Abaixo de porcaria. Até sou uma pessoa cheia de autoestima e confiança, mas a maternidade desafia-nos mesmo para lá do que achamos que são os nossos limites. Não conseguia encontrar solução na Suíça. Não podia ir com o miúdo a Portugal porque não tinha cartão de cidadão ainda. Chorei imenso. Senti-me desesperançada.

Quando percebi que ele tinha perdido o brilho no olhar, algo se moveu em mim. Decidi que ele voltaria a Casa, que eu ia fazer tudo para que os olhos dele voltassem a brilhar. Salvou-me a música, a dança e o meu filho.

Aos 15 dias, pedi ajuda àquela que se tornou uma das pessoas mais importantes na minha (re)construção como Mãe, a Conselheira em Aleitamento Materno, Filipa dos Santos da Amamenta Porto. O acompanhamento da Filipa dos Santos foi essencial para eu conseguir amamentar o meu filho até agora.

Finalmente, após duas parteiras e consultoras de lactação locais não terem soluções para mim (e uma delas até me orientou muito mal), cheguei à Filipa que, mesmo a distância, me apoiou imenso. Ajudou-me a perceber que o meu filho não estava, sequer, a ingerir bem o leite artificial que dava com o suplementador. Ajudou-me a encontrar posições que reduziam substancialmente as dores que tinha. Ajudou-me nas infinitas dúvidas que tive perante tanta informação contraditória que lia. Passou horas comigo no Skype e chat a ouvir o meu desespero, a motivar e a ajudar o melhor que podia a distância.

Para mim, esta mulher foi enviada por Deus. Salvou-me nos meus momentos mais sombrios.

E tive tantos. Tantos! Tive imensas dores até aos 3,5 meses.

Todos os dias pensei em desistir, 1000 vezes por dia.

Nalgumas dessas vezes, escrevia-lhe a dizer isso mesmo. Sempre recebi a palavra certa, a atitude correta, a motivação, o carinho e o abraço (mesmo que virtual). Recordo-me de, um dia, termos estado no Skype a conversar por mais de 2 horas (se eu precisava de conversar!) comigo a fazer pele a pele com o meu bebé. Para mim, o apoio contínuo dela foi essencial para o sucesso da amamentação.

Contactei a Filipa para ser minha Conselheira de Aleitamento Materno, mas, na verdade, forma muito espontânea, acabou por ser também minha Doula Pós-Parto. Hoje é minha Amiga.

Passadas as dificuldades iniciais da amamentação, foi também importante na introdução da alimentação complementar e nas outras dúvidas que vão surgindo em relação à maternidade. Estarei sempre profundamente grata à Filipa por tudo. Pelo conhecimento técnico sempre atualizado, pela empatia, pela motivação e pelo tempo que nos cedeu, que foi muito além do serviço que contratei.

Como disse, tive imensas dores até aos 3,5 meses. De cada vez que as dores ganhavam e eu desistia (essencialmente durante cada mamada), perguntava a mim mesma “se desistir hoje como me sentirei amanhã?“. A resposta nunca me deixava tranquila e na mamada seguinte lá estávamos nós, eu, o meu filho e o suplementador – que se tornou um grande aliado da amamentação, mas odiado mesmo assim.

Comecei a colocar objectivos… Ate sábado… Ate ao fim do mês… Até à próxima consulta…

Com tudo isto nunca tive grande produção (ter alguma é até de espantar com a cascata de erros que foi).

Só às 6 semanas foi diagnosticado freio labial. Sempre desconfiámos que houvesse freio sublingual curto posterior, mas nunca ninguém o diagnosticou aqui na Suíça (algo muito difícil aqui tal como em Portugal).  Após o corte do freio labial às 8 semanas (detetado pela terceira parteira e especialista) melhorou um pouco as dores. Mas nada de mais.

Por essa altura rendi-me à evidência.

Não era suficiente para o meu filho.

Qualquer mãe que tenha querido muito amamentar em exclusivo e não conseguiu pode imaginar como me senti. Só quem o vive consegue realmente entender o quão profunda é esta ferida.

Pelos 3 meses uma CAM portuguesa pede-me para falar com uma mãe da Suíça que estava com as mesmas indicações que eu tinha tido… na verdade ela já tinha saído da maternidade com biberão.  Estava com as mesmas indicações que eu tinha tido… um caminho garantido para o desastre. Falámos e consegui ajudá-la. Mais tarde ela recorreu também à Filipa Dos Santos que a ajudou e ainda hoje amamenta.

O contacto com esta Mãe deu sentido ao que eu tinha passado e ainda passava. E deixei de me render.

Começou a crescer em mim a vontade de voltar a procurar soluções.

O cartão de cidadão do miúdo chegou no dia a seguir e para mim foi um sinal! (Adoro os sinais que a Vida nos dá!)
Marquei viagem para Lisboa e consulta para a Dra. Mónica Pina. Nessa altura ela achava que já não valeria cortar o freio porque ele já tinha bastante flexibilidade por causa de 4 semanas de exercícios a brincar que fui fazendo. Ainda hoje me deita a língua de fora o miúdo. Mas saí de lá com o meu coração mais calmo.

A Mónica disse-me algo muito importante para mim. AMAMENTAR É APENAS UMA PARTE DA MATERNIDADE. E isso fez-me pensar que afinal não era eu que não era suficiente para o meu bebé. Olhei para o que nos estava a acontecer de outra forma. Se o meu filho só mamava X do meu leite então era isso que ele precisava de mim.

EU TINHA TUDO O QUE ELE PRECISAVA DE MIM. EU ERA SUFICIENTE!

Outra coisa que ela me disse foi que o leite artificial que eu dava, por vezes, era mais para mim do que para ele. E realmente as minhas inseguranças ditavam que eu desse mais leite artificial. A partir daí quando eu achava que ele precisava de suplemento perguntava-me se era para ele ou “para mim”.

Definimos então nessa consulta que o objectivo seria reduzir o leite artificial gradualmente e conseguir o exclusivo após a introdução da alimentação complementar. Fui aplicando a estratégia definida o melhor que podia (não conseguia usar a bomba… perdia horas naquilo de noite para tirar 20ml quando eu precisava era de dormir). Andámos assim uns meses entre reduzir e aumentar leite artificial… mas rapidamente passamos de 800ml para 500 (eu acho que aqueles 300ml que reduzimos rapidamente eram os tais “para mim”). Depois baixamos para 400ml. E parou ali por muito tempo.

Eu estava mais relaxada e a desfrutar do meu bebé e da maternidade.

E isso era tão bom! Não ia deixar que o leite artificial me retirasse isso! Não ia mesmo. Chegámos aos 200ml (nem sei bem em que altura).

Com a introdução da alimentação complementar perto dos 6 meses, fomos reduzindo o leite artificial cada vez mais. Nas férias, talvez por eu estar mais disponível, quase não pedia suplemento… e quando regressamos à Suíça, perto dos 9 meses, apercebemo-nos que há uma semana que não fazíamos leite artificial.

CONSEGUIMOS!

Ainda hoje amamento, quase 20 meses. Nem imaginas a alegria que é para mim escrever isto.

Sei que fiz o melhor. O que me foi possível perante as circunstâncias que tinha.

Hoje sei qual a origem emocional das minhas dores (um dia escrevo sobre isso).

Para mim neste sucesso foram imprescindíveis:

  • A minha determinação.
  • Boa informação.
  • O apoio contínuo da minha CAM.
  • O apoio incondicional do meu marido.
  • O suplementador (não sei se o beije ou se o queime).
  • O meu bebé maravilha que sempre alinhou em tudo o que lhe propus.

Para dar sentido à minha história, em abril de 2016 comecei a minha formação em aleitamento materno. Precisava de dar um sentido à nossa história.

Depois de resgatar o meu Poder coloco-me ao Serviço a apoiar outras mulheres a resgatarem o seu Poder, quaisquer que sejam as suas histórias, opções e desejos.

Hoje posso dizer que já regressei a Casa. Quem me trouxe foi o meu filho.

 

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